Para os incas, a rocha quebrada de Machu Picchu não teria sido um obstáculo, e sim a razão de escolher o lugar. É o que propõe uma hipótese apresentada em 2019. No Peru, muros de pedra, terraços e escadas ocupam uma montanha íngreme, e o terreno sob esse conjunto, segundo a proposta, foi escolhido de propósito por ser feito de rocha muito quebrada por falhas e fraturas.

A proposta é do geólogo Rualdo Menegat, do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele apresentou o resumo "How Incas Used Geological Faults to Build Their Settlements" na reunião anual da Sociedade Geológica da América (GSA), em Phoenix, em 23 de setembro de 2019, no artigo de número 148-9.

O método combinou imagens de satélite e dados de campo. O resumo descreve uma rede muito densa de falhas e fraturas, analisada em oito ordens de escala, com três direções principais, medidas como 020°, 055° e 330°, e duas secundárias, de norte a sul e de leste a oeste. Relevo e blocos de rocha, moldados pela erosão, aparecem justamente nos cruzamentos.

As falhas que ajudaram os incas a erguer Machu Picchu - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O argumento: pedra fragmentada para construir no alto

A tese do autor é que os incas "escolheram intencionalmente falhas transversais para construir suas cidades". Uma rocha tão fragmentada permitiria construir em altitude de forma estratégica contra riscos geológicos, e setores, edifícios e escadas seguiriam as três direções de falhas. Rachaduras, aliás, fazem parte da fama de outra construção antiga: o concreto romano do Panteão, que, segundo engenheiros, se conserta sozinho quando racha.

A revista Archaeology, do Instituto Arqueológico da América, noticiou a pesquisa em 25 de setembro de 2019, citando a revista Science. Segundo a cobertura, o substrato fraturado oferecia pedra em abundância e as fraturas também canalizam e drenam a água. Menegat afirmou, em tradução livre, que seria "impossível construir tal sítio nas altas montanhas se o substrato não fosse fraturado".

Proposta de congresso, não fato estabelecido

A ideia foi apresentada em congresso na forma de resumo e permanece uma hipótese, não uma conclusão estabelecida. A facilidade de trabalhar a pedra e o papel das fraturas na drenagem foram relatados pela Archaeology; o resumo da GSA descreve um padrão estrutural de drenagem.

Nas fotos do sítio, as falhas não são visíveis a olho nu: a hipótese vem da análise de imagens de satélite e de dados de campo. Para comparar com outra obra antiga de pedra, a Via Ápia romana, construída em quatro camadas de pedra, cascalho, areia e laje, é estudada pela forma como foi construída; em Machu Picchu, a discussão é sobre o terreno escolhido.

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