Fenomenografia é uma abordagem de pesquisa qualitativa cujo objetivo é descrever as diferentes maneiras pelas quais pessoas compreendem, percebem e vivenciam um fenômeno. Ela investiga a variação qualitativa dessas compreensões, sempre a partir da perspectiva dos sujeitos, o que a distingue de métodos que buscam causas, estruturas internas da mente ou explicações universais. Diferencia-se da fenomenologia, que procura compreender a experiência vivida pelo indivíduo e identificar a “essência” do fenômeno.

Histórico A origem do termo fenomenografia remonta ao grego, combinando phainómenon (aquilo que aparece, aquilo que se mostra) e graphéin (descrever). O nome expressa o propósito fundamental da abordagem: descrever as diferentes maneiras pelas quais os fenômenos são percebidos ou aparecem para as pessoas. A fenomenografia foi desenvolvida na década de 1970 por Ference Marton e colegas da Universidade de Gotemburgo, durante estudos sobre aprendizagem e diferenças de entendimento entre estudantes. Estudantes enfrentando a mesma tarefa de leitura produziam resultados qualitativamente distintos porque concepções distintas do texto orientavam seu modo de estudar. Esses trabalhos inauguraram uma abordagem que se dedicava não ao comportamento em si, mas à maneira como as pessoas entendem o que fazem. A partir dos anos 1990 e 2000, a fenomenografia expandiu-se para campos como educação superior, saúde, desenho de currículos e, mais recentemente, estudos organizacionais.

Fundamentos teóricos A fenomenografia se apoia no princípio do não-dualismo experiencial, ou seja, da ideia de que não existe uma separação rígida entre o sujeito que percebe e o mundo percebido. Experienciar não significa apenas “vivenciar algo” ou “passar por uma situação”, mas relacionar-se com um fenômeno de um modo particular, integrando simultaneamente três dimensões:

Percepção: aquilo que a pessoa nota e o que fica em sua atenção. Significação: o sentido que ela atribui ao que percebe. Ação: como ela age em relação ao fenômeno, guiada por sua compreensão. Nessa perspectiva, experienciar é um modo de perceber–pensar–agir diante de um aspecto do mundo. Diferentemente de abordagens que estudam a realidade “objetiva” ou a mente como uma entidade interna separada, a fenomenografia entende que o ponto de partida da pesquisa deve ser a relação entre o sujeito e o fenômeno. O que interessa não é o indivíduo isolado, nem o fenômeno isolado, mas como o fenômeno aparece para as pessoas, isto é, como elas o compreendem e vivenciam. Essa perspectiva explica por que a fenomenografia estuda concepções, ou seja, as unidades de significado que integram percepção, reflexão e ação. Cada concepção representa um modo específico de experienciar algo. O resultado de um estudo fenomenográfico é um conjunto de categorias de descrição, cada uma representando um modo qualitativamente distinto de compreender o fenômeno. Essas categorias são organizadas em um "espaço de resultado" (outcome space), uma estrutura lógica que mostra a relação entre elas, frequentemente hierárquica e inclusiva, com concepções mais amplas incorporando aspectos das mais simples. Figurativamente falando, o "espaço de resultados" é um mapa que representa todas as maneiras identificadas pelas quais o fenômeno é compreendido por um grupo.

Modalidades e procedimentos Há duas correntes principais dessa abordagem teórica: 1) a fenomenografia pura, que é mais flexível, que admite diferentes formas de coleta de dados (entrevistas, textos escritos, documentos) e combinações com outras técnicas, como grupos focais; 2) a fenomenografia desenvolvimental, que segue procedimentos mais rígidos para evitar a “contaminação” das entrevistas, e que usa as concepções identificadas para promover desenvolvimento, aprendizagem e melhoria organizacional. Em geral, as entrevistas realizadas com essa abordagem usa perguntas abertas, que utilizam exemplos concretos e que focam na reflexão, mas sem condução ou julgamentos do entrevistador. A análise dos dados coletados exige múltiplas leituras das transcrições e a comparação constante das respostas, buscando diferenças qualitativas. O papel do pesquisador é agrupar significados e sintetizá-los em concepções distintas, organizadas no espaço de resultados. Esse modelo de análise envolve lidar com grande volume de dados, leitura exaustiva das entrevistas e elaboração de categorias simultaneamente inclusivas e distintas.

Exemplos de aplicação No estudo Valoração do conhecimento nas organizações (Cherman & Rocha-Pinto, 2016) a fenomenografia foi utilizada para identificar como profissionais de recursos humanos compreendem o que significa “valorizar conhecimento” no trabalho. Através das entrevistas realizadas, foi possível elencar cinco concepções distintas, que variavam desde entendimentos mais simples, como aplicar conhecimento para executar tarefas, até concepções mais amplas, nas quais valorizar conhecimento significava transformar práticas organizacionais ou gerar mudança profissional. O espaço de resultado, ou o mapa de concepções mostrou que ha relações hierárquicas e movimentos dinâmicos entre elas. Já o estudo Concepções de empreender entre jovens brasileiros (Amaro, 2002), aplicou a fenomenografia para descrever como jovens brasileiros compreendem o ato de empreender. As entrevistas produziram quatro concepções: a) a mais restrita, em que empreender é uma ação voltada à sobrevivência econômica, associada à iniciativa individual para “fazer algo por conta própria”; 2) uma intermediária, em que empreender significava identificar oportunidades e assumir riscos calculados; 3) a de nível mais amplo, na qual empreender é um processo criativo e planejado, que envolve inovação, visão de futuro e articulação de recursos; 4) a mais abrangente, em que empreender é entendido como uma forma de transformar realidades sociais, envolvendo propósito coletivo, impacto comunitário e desenvolvimento sustentável.

Ver também Fenomenologia Pesquisa qualitativa

Referências