A geologia do Seridó compreende o conjunto de unidades litoestratigráficas, estruturas tectônicas, recursos minerais e formas de relevo que caracterizam a região homônima, situada na porção setentrional da Província Borborema, nordeste do Brasil. Abrangendo setores dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba, o território corresponde, no arcabouço geotectônico brasileiro, a parte significativa do Domínio Rio Grande do Norte, com embasamento paleoproterozoico retrabalhado durante a Orogênese Brasiliana/Pan-Africana e recoberto pela sequência supracrustal do Grupo Seridó, que dá nome ao conjunto. Em 2022, seis municípios do Seridó potiguar passaram a integrar a Rede Mundial de Geoparques da UNESCO, em reconhecimento ao valor científico e patrimonial das exposições geológicas e geomorfológicas da região.

Contexto geotectônico O Seridó localiza-se no Domínio Rio Grande do Norte (também denominado Terreno Rio Piranhas–Seridó), uma das compartimentações tectônicas da Província Borborema, delimitado a sul pela Zona de Cisalhamento Patos e a norte pelo Domínio Médio Coreaú. Sua evolução geotectônica é marcada por dois grandes ciclos orogênicos: um ciclo Transamazônico (Paleoproterozoico), responsável pela formação do embasamento cristalino entre cerca de 2,2 e 2,0 Ga; e um ciclo Brasiliano/Pan-Africano (Neoproterozoico, ca. 650 a 540 Ma), que deformou e metamorfizou o conjunto, gerou a maior parte das estruturas atuais e foi responsável pela colocação de volumosa massa de granitoides e pegmatitos. Esse arcabouço é correlato ao cinturão Trans-Saariano da África Ocidental, com o qual compartilhava configuração geológica antes da fragmentação do supercontinente Gondwana no Mesozoico.

Litoestratigrafia A sucessão litoestratigráfica do Seridó é tradicionalmente dividida em um embasamento gnáissico-migmatítico paleoproterozoico e uma cobertura supracrustal neoproterozoica, ambos intrudidos por corpos graníticos brasilianos e por extensa rede de pegmatitos tardios.

Embasamento paleoproterozoico O embasamento cristalino é representado pelo Complexo Caicó (também referido, em cartografias recentes, como Complexo Rio Piranhas–Caicó), com idades U–Pb em zircão situadas em torno de 2,2 a 2,0 Ga. É composto por associações de ortognaisses tonalito-trondhjemito-granodioríticos (TTG), migmatitos, anfibolitos e, subordinadamente, rochas metassedimentares, frequentemente afetados por processos de migmatização e retrabalhamento durante a Orogênese Brasiliana. Constitui o substrato sobre o qual se depositou a sequência supracrustal do Grupo Seridó.

Grupo Seridó O Grupo Seridó é a principal cobertura supracrustal da região. Metamorfizado em fácies anfibolito a granulito, tem deposição atribuída ao Neoproterozoico, entre cerca de 650 e 580 Ma. É tradicionalmente subdividido em três formações:

Formação Jucurutu (base): paragnaisses, mármores calcíticos e dolomíticos, rochas calcissilicáticas e, subordinadamente, metavulcânicas. Seus mármores e calcissilicáticas constituem o principal metalotecto da scheelita no Brasil. Formação Equador (intermediária): quartzitos puros, quartzitos feldspáticos e metaconglomerados, que sustentam as serras residuais mais proeminentes da região. Formação Seridó (topo): micaxistos e biotita-xistos granatíferos, localmente com porfiroblastos de estaurolita, cordierita ou silimanita — assinaturas de metamorfismo progressivo. As fácies e relações estratigráficas são compatíveis com uma bacia de margem passiva a rifte, posteriormente invertida durante a convergência brasiliana.

Granitoides brasilianos O conjunto foi intrudido por uma suíte variada de granitoides brasilianos, de idade ca. 580 a 540 Ma, organizada em gerações pré-, sin-, tardi- e pós-tectônicas. Destacam-se a Suíte Itaporanga — caracterizada por granitos porfiríticos com megacristais de feldspato potássico — e plútons individualizados como os de Acari, Flores, Totoró, Dona Inês e Caraúbas. Os corpos pós-tectônicos, alojados em zonas de dilatação associadas às grandes transcorrências brasilianas, estão frequentemente circundados por enxames pegmatíticos.

Província Pegmatítica da Borborema A Província Pegmatítica da Borborema é uma das mais importantes províncias pegmatíticas do mundo em diversidade mineralógica, ocupando extensa porção do Seridó potiguar e paraibano. Os corpos pegmatíticos — tardi- a pós-tectônicos, com idades em torno de 510 a 490 Ma — alojam-se preferencialmente nos micaxistos da Formação Seridó, sob a forma de diques, lentes e stocks decimétricos a hectométricos. Apresentam alta especialização geoquímica em elementos incompatíveis (lítio, berílio, nióbio, tântalo, estanho, césio), com associações mineralógicas que incluem tantalita-columbita, berilo (em variedades gemológicas como água-marinha e heliodoro), espodumênio, ambligonita, lepidolita, turmalina policromática, além de feldspatos e mica branca com aproveitamento industrial.

Estruturas tectônicas e metamorfismo O arcabouço estrutural do Seridó foi essencialmente moldado durante a Orogênese Brasiliana, por meio de um sistema de zonas de cisalhamento transcorrentes dextrais de escala regional, que individualizam os domínios tectônicos e condicionam o traçado das principais feições geomorfológicas. Entre as mais expressivas estão:

a Zona de Cisalhamento Patos, que limita o Domínio Rio Grande do Norte a sul, separando-o do Domínio da Zona Transversal; a Zona de Cisalhamento Portalegre, de direção NE–SW, que corta o Seridó potiguar; a Zona de Cisalhamento Picuí–João Câmara, que atravessa as áreas de maior concentração de pegmatitos. Os dobramentos regionais apresentam eixos predominantemente NE–SW, com foliação penetrativa sub-vertical. O metamorfismo regional atinge a fácies anfibolito a granulito nas porções centrais da faixa dobrada, com retrometamorfismo em fácies xisto-verde associado a zonas de cisalhamento rúpteis-dúcteis mais jovens. As condições de pico metamórfico são compatíveis com temperaturas de 600 a 750 °C e pressões de 4 a 7 kbar.

Geomorfologia O relevo do Seridó é condicionado pelo contraste litológico-estrutural do embasamento cristalino e por uma prolongada história de denudação em clima semiárido. Do ponto de vista morfoescultural, distinguem-se duas unidades principais:

a Depressão Sertaneja, superfície de aplainamento gerada por pediplanação cenozoica, que ocupa a maior parte da região, com altitudes tipicamente entre 150 e 400 m; as bordas setentrional e oriental do Planalto da Borborema, onde se destacam serras residuais sustentadas por quartzitos da Formação Equador, como a Serra de Santana, a Serra do Lima, a Serra das Queimadas e a Serra de Cuité. Elemento paisagístico característico são os inselbergs graníticos e pães-de-açúcar, maciços isolados que emergem abruptamente sobre a superfície pediplanada, a exemplo do Pico do Totoró, em Currais Novos, do Cabeço e da Pedra do Chapéu. Pedimentos, rampas de colúvio e solos rasos — neossolos litólicos e luvissolos — compõem o restante do modelado semiárido. A rede de drenagem é predominantemente intermitente, representada pelos rios Seridó, Acauã, Espinharas e Piranhas, com padrão dendrítico-retangular de forte controle estrutural imposto pelos lineamentos brasilianos.

Recursos minerais O Seridó notabiliza-se historicamente como importante província mineral do Brasil, com ciclos de exploração associados à scheelita, a minerais pegmatíticos e a rochas industriais.

Scheelita Os depósitos de scheelita do Seridó, classificados como do tipo skarn, estão associados aos mármores e rochas calcissilicáticas da Formação Jucurutu e concentram-se na borda leste da faixa dobrada. A Mina Brejuí, em Currais Novos, foi por décadas o maior produtor de tungstênio do país, operando em escala industrial entre as décadas de 1940 e 1990. Outros depósitos relevantes incluem Barra Verde, Bodó e Zangarelhas. O ciclo da scheelita marcou profundamente a economia, a urbanização e a identidade regional, sobretudo no Seridó potiguar.

Pegmatitos e minerais-gema Os pegmatitos da Província Pegmatítica da Borborema são explorados há mais de um século, especialmente em municípios como Parelhas, Junco do Seridó, Pedra Lavrada, Equador e Picuí. Deles se extraem tantalita-columbita — utilizada na indústria eletrônica — e minerais-gema como água-marinha, turmalina policromática e, mais raramente, crisoberilo e topázio. Feldspatos, micas e caulim obtidos desses corpos abastecem indústrias de cerâmica e vidro em escala nacional.

Argilas e caulim Vales sedimentares intracristalinos e pegmatitos caulinitizados fornecem argilas e caulim que sustentam um dos maiores polos de cerâmica vermelha do Brasil, concentrado em municípios como Parelhas, Carnaúba dos Dantas e Santa Luzia.

Patrimônio geológico

Geoparque Seridó O Geoparque Seridó foi admitido em abril de 2022 na Rede Mundial de Geoparques da UNESCO, tornando-se o segundo geoparque brasileiro a obter o reconhecimento, ao lado do Geoparque Araripe. O território abrange seis municípios do Seridó potiguar — Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Currais Novos, Lagoa Nova e Parelhas — e reúne cerca de vinte e um geossítios de relevância científica, educativa e turística, entre os quais:

a Mina Brejuí, registro do ciclo da scheelita; o Pico do Totoró, inselberg-símbolo da região; os Tanques do Xiquexique, cavidades naturais em rochas graníticas com ocupação arqueológica pré-colonial; os Cânions dos Apertados, na calha do rio Piranhas; os afloramentos de Tróia e Poço do Arroz, com exposições notáveis dos mármores da Formação Jucurutu e de pegmatitos. O reconhecimento como Geoparque Mundial da UNESCO institucionalizou a proteção e o uso sustentável do patrimônio geológico do Seridó, articulando geoturismo, educação ambiental e pesquisa científica.

Ver também Seridó Geoparque Seridó Grupo Seridó Província Borborema Orogênese Brasiliana Caatinga

Referências