Mortalidade associada ao fisiculturismo refere-se ao estudo das mortes prematuras, mortes súbitas e factores de risco observados entre praticantes e atletas de fisiculturismo, em especial no fisiculturismo competitivo de alto rendimento. O tema tem recebido atenção crescente na literatura médica devido à ocorrência de mortes súbitas em atletas jovens ou de meia-idade, frequentemente associadas a doença cardiovascular, uso de esteroides anabolizantes androgénicos, diuréticos, insulina, hormonas e outras substâncias utilizadas para aumento de massa muscular, redução de gordura corporal ou preparação estética para competições. Embora o treino de força, quando realizado de forma adequada, esteja associado a benefícios para a saúde, o fisiculturismo competitivo envolve práticas específicas que podem aumentar riscos médicos, como ciclos prolongados de substâncias ergogénicas, grande variação de peso corporal, dietas extremas, desidratação deliberada antes das competições e manipulação de electrólitos.

Estudos epidemiológicos A investigação sistemática sobre mortalidade no fisiculturismo é relativamente recente. Durante muitos anos, a discussão baseou-se sobretudo em relatos de caso, notícias sobre mortes de atletas e estudos sobre efeitos adversos de esteroides anabolizantes. Uma revisão publicada em 2023 observou que, em 2021, mais de duas dezenas de fisiculturistas profissionais morreram subitamente, além de vários atletas reformados com menos de 60 anos, chamando atenção para a necessidade de estudos específicos sobre o tema. Em 2025, um estudo publicado no European Heart Journal analisou 20 286 atletas masculinos que competiram em 730 eventos da International Federation of Bodybuilding and Fitness entre 2005 e 2020. Durante o período de seguimento, foram identificadas 121 mortes. Destas, 73 foram classificadas como mortes súbitas, incluindo 46 mortes súbitas cardíacas. Entre atletas ainda em competição, a idade média nos casos de morte súbita cardíaca foi de 34,7 anos. O estudo estimou uma incidência de morte súbita cardíaca de 32,83 casos por 100 000 atleta-anos entre competidores activos, concluindo que os fisiculturistas profissionais apresentavam risco mais elevado do que os amadores. Segundo os autores, as autópsias disponíveis em casos de morte súbita cardíaca mostraram, de forma recorrente, cardiomegalia e hipertrofia ventricular. O estudo não permitiu estabelecer causalidade individual entre determinadas substâncias e cada morte, mas reforçou a preocupação com a saúde cardiovascular de atletas de fisiculturismo competitivo.

Factores de risco

Doença cardiovascular A doença cardiovascular é apontada como uma das principais preocupações na mortalidade associada ao fisiculturismo. Revisões médicas sobre esteroides anabolizantes androgénicos descrevem associação entre o uso dessas substâncias e hipertensão arterial, alterações do perfil lipídico, resistência vascular aumentada, hipertrofia cardíaca, toxicidade directa do miocárdio, arritmias, enfarte do miocárdio, insuficiência cardíaca e morte súbita cardíaca. O aumento da massa muscular e do peso corporal, a pressão arterial elevada, o uso de substâncias estimulantes e a eventual presença de cardiopatias não diagnosticadas podem contribuir para risco aumentado em alguns atletas. Em casos individuais, a morte súbita pode decorrer de doenças cardíacas hereditárias ou estruturais, como a cardiomiopatia hipertrófica, independentemente do uso de substâncias, embora estas possam agravar condições pré-existentes.

Esteroides anabolizantes androgénicos Os esteroides anabolizantes androgénicos são substâncias sintéticas derivadas da testosterona e usadas ilicitamente por alguns atletas e praticantes de musculação para aumentar massa muscular, força e definição corporal. A literatura médica associa o uso não terapêutico dessas substâncias a efeitos adversos cardiovasculares, hepáticos, renais, endócrinos, dermatológicos e psiquiátricos. Entre os efeitos cardiovasculares descritos estão alterações no colesterol, elevação da pressão arterial, hipertrofia ventricular, síndrome hipereosinofílica, trombose, enfarte e morte súbita cardíaca. No entanto, muitos estudos são limitados por subnotificação, uso simultâneo de várias substâncias, ausência de acompanhamento médico formal e dificuldade em determinar doses reais, duração de uso e composição exacta dos produtos consumidos.

Diuréticos, desidratação e electrólitos Na fase final de preparação para competições, alguns fisiculturistas recorrem a restrição hídrica, manipulação de sal e uso de diuréticos para reduzir a retenção de líquidos e acentuar a definição muscular. Essas práticas podem provocar desidratação e desequilíbrios electrolíticos, com risco de cãibras, síncope, insuficiência renal aguda, arritmias e colapso cardiovascular. A relação entre desequilíbrios electrolíticos e eventos cardíacos graves é bem estabelecida na medicina de emergência, embora a quantificação específica desse risco no fisiculturismo seja dificultada pela ausência de estudos prospectivos amplos.

Insulina, hormona do crescimento e outras substâncias Além de esteroides anabolizantes, a literatura médica descreve o uso não médico de insulina, hormona do crescimento, estimulantes, hormonas tiroideias e outros fármacos em alguns contextos de fisiculturismo. A insulina pode ser usada ilicitamente com a intenção de favorecer ganho de massa, mas o seu uso fora de indicação médica pode causar hipoglicemia grave, coma e morte. Relatos de caso demonstram que o uso clandestino de insulina em fisiculturistas pode ser difícil de identificar inicialmente, pois os sintomas podem mimetizar outras causas de alteração de consciência e requerer investigação toxicológica e endocrinológica específica.

Casos notórios

Gabriel Ganley

Em maio de 2026, o fisiculturista e influenciador brasileiro Gabriel Ganley, conhecido nas redes sociais como "Bebezinho" ou "Bbzinho", morreu aos 22 anos em São Paulo. A declaração de óbito apontou morte súbita cardíaca por cardiomiopatia hipertrófica. A Polícia Civil registou inicialmente o caso como morte súbita sem causa determinante aparente e descartou sinais de violência, prosseguindo a investigação para esclarecer as circunstâncias do óbito. O caso reacendeu no Brasil o debate sobre saúde cardíaca, uso de hormonas e medicamentos no meio fitness. Algumas reportagens mencionaram a presença de medicamentos e possível uso de anabolizantes, mas a causa indicada no documento de óbito foi cardiomiopatia hipertrófica, de modo que não é possível afirmar, com base nas fontes disponíveis, que substâncias dopantes tenham causado directamente a morte.

Wang Kun Em dezembro de 2025, Wang Kun faleceu aos 30 anos por suspeita de problemas cardíacos envolvendo uso de substâncias ergogénicas. Kun era um dos principais nomes do fisiculturismo chinês, fazendo parte da Federação Internacional de Fisiculturismo (IFBB) e conquistando oito títulos nacionais de fisiculturismo na China.

Jason Lowe Em janeiro de 2026, o fisiculturista norte-americano Jason Lowe faleceu aos 38 anos. O atleta participou do Mr. Olympia duas vezes e venceu uma National Physique Committee (NPC) das dez vezes que as participou.

Limitações da investigação O estudo da mortalidade no fisiculturismo enfrenta várias limitações metodológicas. Muitas mortes são conhecidas inicialmente por notícias, redes sociais ou comunicados de familiares e patrocinadores, sem acesso público a autópsias, exames toxicológicos ou historial clínico completo. Além disso, atletas podem usar múltiplas substâncias em simultâneo, em doses não declaradas e por longos períodos, dificultando a atribuição de causalidade. Outra dificuldade é distinguir entre risco associado ao treino de força em si e risco associado a práticas específicas do fisiculturismo competitivo, como uso de substâncias, dietas extremas, desidratação, flutuações rápidas de peso e preparação para palco. A literatura médica tende a tratar o tema como multifactorial, evitando atribuir a mortalidade a uma causa única.

Prevenção e acompanhamento médico Especialistas em medicina desportiva defendem que atletas de fisiculturismo competitivo devem ser acompanhados por profissionais de saúde, com avaliação cardiovascular, controlo de pressão arterial, exames laboratoriais, avaliação renal e hepática, rastreio de cardiopatias hereditárias quando indicado e aconselhamento sobre os riscos do uso não médico de substâncias ergogénicas. Em atletas jovens, sintomas como dor no peito, falta de ar, palpitações, desmaio ou queda de desempenho durante esforço devem motivar investigação médica, pois podem estar associados a cardiopatias potencialmente graves.

Referências